O Brasil tenta assumir a mesa - e não o cardápio - da governança global do carbono
Tiago Pessotti - Dezembro 2025
O Brasil tenta assumir a mesa - e não o cardápio - da governança global do carbono
Tiago Pessotti - Dezembro 2025
A notícia de que China e União Europeia aderiram ao plano brasileiro de padronização do mercado de carbono não é apenas um gesto diplomático; é um movimento geopolítico que revela a disputa silenciosa pelo comando das regras da transição climática. A CNN trata o fato como um triunfo do Brasil, e de fato há mérito: pela primeira vez em décadas, o país deixa de ser espectador para propor arquitetura institucional em um tema no qual costuma aparecer apenas como risco ou solução biológica. Mas antes de comemorar, é preciso dissecar o que está realmente em jogo.
O mercado global de carbono é um mosaico fragmentado, repleto de metodologias inconsistentes, auditorias de baixa credibilidade e incentivos desalinhados. O Brasil venceu terreno ao propor padronização, algo que interessa tanto à Europa - que busca segurança jurídica e previsibilidade regulatória - quanto à China - que precisa calibrar seu próprio ETS nacional e ganhar legitimidade internacional. A adesão das duas potências sinaliza que o debate sobre carbono deixou de ser ambiental e tornou-se estrutural para comércio exterior, investimento e competitividade industrial.
Esse alinhamento, porém, não deve ser romantizado. Nem Europa nem China aderem ao plano brasileiro por convicção moral. Elas o fazem por cálculo. A UE precisa garantir que os créditos externos que entrarão na órbita do CBAM não destruam a integridade ambiental do bloco. A China, por outro lado, pretende evitar que padrões excessivamente europeus virem norma global, reduzindo espaço para sua própria influência. O Brasil serve, nesse contexto, como mediador conveniente - não como líder incontestável.
A matéria celebra a sinalização política, mas ignora o ponto central: padronizar é muito mais difícil do que anunciar. O país hoje não possui sequer um mercado regulado funcional interno, muito menos um arcabouço robusto para dar credibilidade a créditos oriundos de REDD+, restauração ou projetos industriais. Falta medição consistente; faltam registries interoperáveis; falta governança que imponha rigor técnico contra a tentação do "greenwishing". O risco é óbvio: propor padrões que não conseguimos cumprir, o que minaria rapidamente a legitimidade internacional que o país tenta construir.
A padronização só será relevante se o Brasil conseguir resolver três problemas domésticos que a CNN não menciona. Primeiro, integrar mecanismos regulados e voluntários sem contaminar o segundo com a baixa integridade do primeiro. Segundo, estabelecer metodologias auditáveis que resistam às críticas já abundantes sobre adicionalidade e over-crediting - problema exposto em estudos recentes, inclusive no Science. Terceiro, garantir que o mercado brasileiro não vire um repositório de créditos baratos comprados por países ricos para adiar sua própria descarbonização estrutural.
O mérito diplomático existe. Mas mérito político não substitui seriedade técnica. O Brasil só terá influência real se mostrar que consegue governar seu próprio mercado com rigor, punir inconsistências, e impedir que floresta vire ativo financeiro sem lastro ambiental. A padronização global não será feita por comunicados conjuntos - será feita por quem demonstrar capacidade de implementar, monitorar e verificar créditos com integridade.
Em síntese, a adesão de China e UE é oportunidade, mas também prova de fogo. O mundo abriu espaço para o Brasil - mas espaço não é poder. Poder se conquista quando o país mostra que sabe escrever as regras e, sobretudo, cumpri-las. O risco é confundir reconhecimento diplomático com competência técnica. O potencial existe; a execução ainda não.